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o twitter tem a característica de amplificar tudo que é dito, seja de bom, seja de mau. a facilidade de se postar um desabafo curto, que certamente não seria publicado em um blog, acaba levando ao ar uma série de pensamentos lamentáveis. isso para empresas traz consequências graves – vide o exemplo do dirigente da locaweb que xingou o time patrocinado pela empresa –, mas o marketing digital não é o enfoque que eu quero dar agora.

fiquei pensando na relação entre as pessoas, mesmo. em como uma frase no twitter, que tantas vez nos faz simpatizar ou admirar por uma pessoa, pode também provocar reações bem negativas. ao ver tweets desse tipo de gente que eu não conheço, logo de cara eu já tenho certeza que o sujeito é um babaca. não conheço, não sei nada dele, aquele pode ter sido o único tweet infeliz da pessoa, mas ó só que azar, vai ser difícil mudar minha impressão. da mesmo forma como às vezes sinto uma decepção profunda ao ver gente que já sigo falando e/ou reproduzindo barbaridades.

notem que falo de mim mas me refiro a reações possíveis e prováveis em qualquer leitor. pode ser o gerente de rh da empresa para o qual o metido a engraçadinho mandou currículo, a garota que ele paquerou e que agora quer saber mais sobre pretendente, o professor daquela matéria que ele está pendurado, enfim, o leitor pode ser QUALQUER PESSOA. e certas coisas não se publica numa página pessoal aberta para qualquer pessoa. eu sei que ninguém é perfeito. todos, sem exceção, temos nossos comportamentos condenáveis. a questão é saber manter cada coisa na sua esfera adequada.

por exemplo, ontem faleceu o filho da atriz cissa guimarães. todo mundo viu a notícia, foi pros trending topics e talz. eu nem acompanhei a repercussão em tempo real, durante o dia, mas de noite vi que um rapaz (que felizmente não conheço) twittou algo mais ou menos assim (perdi o link, sorry): “o presunto do irmão da @marianabelem nem esfriou e ela não larga do twitter”. isso é uma comentário lamentável em qualquer lugar, mas seria hipocrisia dizer que ninguém nunca virou pro amigo do lado e cochichou algo no mesmo nível, bem baixinho pra ninguém mais ouvir. mas daí a publicar numa página na internet com seu nome, e o que é pior, com o @ linkando para o alvo do comentário, é sim uma babaquice sem tamanho. duvido que o espertão teria coragem de dizer isso na cara dela, mas usa-se do @ pra fazer sua provocação chegar ao destino numa demonstração clara de uma absoluta falta de respeito e até de compaixão.

qual é o propósito? punir a coitada que comete o supremo crime de twittar após saber da morte do irmão? aparecer? afirmar-se como um cara que tá cagando para o próximo? na boa, qualquer que seja a alternativa correta esse único tweet bastou pra eu querer distância dessa pessoa.

[em tempo,  a mariana belém mandou o cara tomar no cu em caps lock e eu achei certíssimo. depois ela apagou o tweet, o que pensando bem também é a atitude mais adequada.]

outra coisa que me choca é a capacidade que tanta gente tem de justificar seus preconceitos e valores questionáveis travestindo-os de piada e acusando quem percebe o preconceito embutido de não ter humor. eu venho de uma família que brinca dizendo que “perde o amigo mas não perde a piada”, me considero muito bem humorada sim, e adoro me divertir com piadas inteligentes e… engraçadas! nem sou radical quanto ao humor negro ou aos chistes politicamente incorretos, embora muitas vezes prefira só rir e não repassar.

até que  surge um caso como o do goleiro bruno (infelizmente, de tempos em tempos surge um caso horroroso desses diferente pra cair na boca do povo). desde o começo da história eu me incomodava com piadas sobre o tema por ser ele por demais macabro, mas vá lá, quando alguém disse que esse macarrão era miojo eu não tive escrúpulos de rir.

mas aí começa a aparecer na minha timeline a pérola de que “a elisa samúdio deveria ter aprendido com a stéfany brito que é melhor ser comida pelo pato que pelo cachorro”. gente, atenção: isso NÃO é piada! isso é uma crueldade, é desumano e extremamente preconceituoso! isso não tem graça. nenhuma graça. nem procurando lá no fundinho, nem chamando minha porção mais politicamente incorreta possível. isso é apenas um jogo de palavras SEM A MENOR GRAÇA que tenta travestir de piada um preconceito, para facilitar sua reprodução!

eu ainda tenho fé que algumas (nem todas) pessoas que retuitaram isso caíram na armadilha e não pararam muito bem pra refletir no que estavam endossando – aliás, essa é outro perigo do twitter! –, mas outras, tenho certeza que pensam exatamente o que a falsa piada dá entender. e não fazem a menor questão de esconder, pelo contrário, se orgulham em exibir.

ressalto mais uma vez (falo isso sempre) que a ferramenta não é a culpada. ela é apenas isso: uma ferramenta, e como tal é utilizada por pessoas. e é nelas que está o problema. até porque, é o twitter também nos traz compensações maravilhosas, nos apresenta pessoas e pensamentos e iniciativas lindos e preciosos, que mantêm viva a esperança de que o mundo não está perdido.

[esse texto foi escrito de supetão para eu não perder a ideia que queria registrar. perdoem a falta de links e imagens, e eventuais erros de digitação que tenham passado, mas já passou muito da hora de eu ir dormir. boa noite e sonhem com coisas lindas.]

8 Responses to “o twitter e a falta de noção amplificada”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Clarice Maia Scotti and Helena Di Filippis , Guilherme R. Duarte. Guilherme R. Duarte said: RT @giseleramosbh Muito bom! RT @cmscotti o twitter e a falta de noção amplificada – http://migre.me/Z8NL [...]

  2. Pilar disse:

    Ei, Clair…

    acho ótemo você ter escrito isso. Acho mesmo que precisamos de mais manifestações positivas para mudar um pouco o perfil da internet.

    No início, os blogs me pareciam mais “ingênuos” e, por isso mesmo, a internet era mais divertida. Engraçado usar essa palavra “ingênuo” porque prá mim, hoje, dizer que alguém ou algo é ingênuo é um elogio e tanto. Em meio a toda a barbárie de comentários prá lá de medievais em torno do circo de horrores, ser ingênuo é conseguir preservar uma simplicidade e a capacidade de se identificar com as dores e alegrias do próximo. Acho que é o nosso resquício de “humanidade” (?).

    Ler esses comentários bárbaros e acompanhar a cobertura folhetinesca que a mídia dá a casos lastimáveis das páginas de polícia andou me deixando mais triste e descrente no mundo. Por isso, resolvi deixar prá lá e assumir meu lado conscientemente ingênuo. Quero ser panguá. Me dou o direito de ser “boba” e não saber o que está acontecendo. Essa energia faz mal prá alma. Compadeço a dor da família dessas moças assassinadas, das crianças atiradas pela janela e dos filhos atropelados e baleados; e por isso mesmo, prefiro dar valor aos que estão à minha volta e aproveitar a presença deles em vida, em vez de participar dessa morbidez toda, que não só não ajuda como atrapalha.

    bjim

  3. Clarice disse:

    pi,
    concordo com tudo isso aí que vc falou. e fiquei feliz de ver seu comentário porque, juro, assim que reli o post logo depois de publicar, pensei cá comigo mesma: “mas esse post é a cara da pilar!” ;-)
    bjim

  4. Pilar disse:

    hahahaha… é mesmo a minha cara.

    Putz, agora que resolvi ficar de tocaia na internet ando reparando como as pessoas têm uma incrível capacidade de lançar idiotices ao vento, como se fossem especialistas em tudo quanto é tipo de assunto, sem perceber que isso pode atingir quem tá por perto. Falta humildade para dizer: é melhor eu ficar calado porque disso eu não entendo ou porque isso não me diz respeito.

  5. Clarice disse:

    verdade verdadeiríssima!
    tem sido um exercício quase diário contar até 3 antes de entrar em discussões com gente assim, mas te digo que depois que a gente pega o jeito, é libertador. aí em vez de dar raiva essas pessoas passam a me dar pena! (o que tb não é bom, mas pelo menos não me envenena…)

  6. Rodrigo disse:

    Ninguém está livre de dizer asneiras.
    O mal consiste em dizê-las com pompa.
    Eu digo minhas asneiras tão simples quanto as penso.
    Voltaire

    Sobre bobo eu revi ontem o texto da Clarice
    http://bit.ly/bdWNBG

    Sobre webcidadania eu me lembro de umas conversas com o Lucas sobre como as ações individuais no twitter podem demandar uma certa “reflexão” (política) antes de serem tomadas.

    Considero que refletir sobre a educação* seja fundamental pois quando a gente tem que se policiar antes de agir e, portanto, ser menos espontâneo, a gente deixa de poder ser bobo – como a Clarice Lispector descreveu.

    * Espero que a sociedade exerça essa reflexão com o mesmo engajamento e ação que tem em relação a eleição e a crítica de mídia.
    ** Do mesmo modo penso que o pessoal envolvido em redes sociais digitais abra frentes em prol do aumento do nível educacional da população. É ótimo que a cadeia independente de arte-cultura se estruture a partir de redes sociais digitais mas pensar essas mesmas ferramentas para melhorar a educação é um bom desafio.

  7. Clarice disse:

    é um desafio e tanto!

    pq note, eu não disse que o twitter causa ou propicia barbaridades. ele só amplifica. ele só mostra pro mundo o babaca que antes existia só num âmbito restrito. e um desavisado (bobo, não!) pode acabar pescando uma ideia torta dessas, não refletir direito e pimba, mais um papagaio na rede!

    por enquanto, o twitter só mostrou. usá-lo pra mudar pode e deve ser possível, mas infelizmente ainda não vejo como assim com certeza – o que não me impede de dar umas cabeçadas como essa pra ver se cola.

    o fato é que sou uma poliana incorrigível e acredito muito naquela história de agir localmente, consertar a nossa casa antes de consertar o mundo, etc. esse texto não deixa de ser um tijolinho nessa construção. se fez alguém, um só que seja, parar pra refletir, já não foi apenas um desabafo em vão. se fez alguém repensar sua conduta, uau, comemoremos!

    enquanto isso, sigo observando e afastando de mim aqueles não me enriquecem a vida nem ao menos com um sorriso. pode ser um egoísmo, mas é necessário.

    em tempo: adorei o texto do bobo – não conhecia! obrigada por me apresentá-lo! :-)

  8. [...] @overead que comentou esse post no claricemaia.com. Ou seja, muita sorte de ler tudo [...]

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